O discreto avanço das mulheres nas eleições em Pernambuco

Movimentos no Congresso Nacional para a abertura de oportunidades para que mulheres possam entrar na política. Foto: Reprodução/Agência Brasil
Desde 2000, a porcentagem de mulheres eleitas em Pernambuco aumentou apenas 6%. O estado passou de 10% para 16%, uma média de 1% a cada eleição municipal. O crescimento foi lento nos últimos 24 anos, e é apenas um reflexo do que acontece em todo o território nacional. As mulheres eleitas em todo o país no mesmo período passaram do patamar de 11% para 18%. Junto com os pequenos avanços, continuaram sendo proporcionais as mudanças de acordo com os espectros políticos. A direita, que tradicionalmente marca território nas eleições municipais, não fez diferente, e elegeu boa parte das candidatas a prefeitas e vereadoras.
O LeiaJá calculou que 156 candidatas de partidos considerados como de direita e outras 105 da centro-direita venceram o pleito, entre vereadoras e prefeitas. O somatório é bem maior, no entanto, do que as 47 da esquerda tradicional e 100 de centro-esquerda eleitas. O questionamento que se levanta é: as vitórias da direita, ao eleger mais mulheres, representam, de fato, avanços nas pautas de minorias, ou é apenas o cumprimento da agenda da direita e extrema-direita em se manter no poder, aproveitando as cotas partidárias?
Houve, sim, mudanças e avanços no cenário nacional para a inserção de mulheres na política. Em teoria. As cotas do Fundo Partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha para as mulheres são exemplos disso. O cientista político Antônio Fernandes, especialista em eleições e com formação na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), pontua, porém, que há formas de “burlar a regra”. Seja com candidaturas fantasmas ou com mulheres encabeçando chapas, mas com autorização de um diretório partidário predominantemente masculino.
“As estruturas partidárias ainda são compostas majoritariamente por homens, responsáveis pela destinação dos recursos. Também temos outros problemas estruturais, como o sistema eleitoral de lista aberta onde o eleitor vota no indivíduo e não efetivamente no partido, beneficiando os que possuem maior capital político, ativo ainda majoritariamente masculino. Sem mencionar a dupla jornada de trabalho e fatores sociais relevantes que ainda posicionam a mulher majoritariamente no espaço privado”, contextualiza.
Posicionamento local
No entanto, o cenário para as esferas municipais pode mudar, em comparação com as atuações dos partidos a nível nacional. Antônio Fernandes explica que isso pode acontecer a depender dos direcionamentos que os partidos têm localmente.
De acordo com o especialista, é o caso, por exemplo, do Republicanos, partido de direita, a nível nacional. Porém, em Pernambuco, a legenda tem em sua presidência o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho. Assim, o partido segue um posicionamento de apoio ao governo Lula, e consequentemente ao PSB, que domina o estado, e possui boa relação com o PT. Por outro lado, o oposto é o caso do PSD, presidido, em Pernambuco, pelo ministro da Pesca e Aquicultura, André de Paula. Ele, porém, segue ao lado da governadora Raquel Lyra (PSDB).
“Ou seja, não podemos inferir que todas as eleitas por essas legendas estão necessariamente posicionadas à direita. Nas eleições para vereador, é fundamental estar em um partido que consiga fazer uma lista competitiva para ultrapassar o quociente eleitoral e partidário e isso, principalmente em cidades menores, acaba sendo muitas vezes mais decisivo do que a ideologia da legenda”, comentou.
Fato é que essas uniões são mais comuns nas esferas locais, já que muitas vezes é a única maneira de concentrar mais votos. Aconteceu nessas eleições em municípios como Pesqueira, no Agreste, e Camaragibe, no Grande Recife. Ambos elegeram a chapa encabeçada pelo Republicanos, mas tendo na vice uma mulher do PT.
Baixa constante de mulheres de esquerda
Olhando para o outro lado da moeda, os partidos de esquerda e centro-esquerda seguem em baixa nas prefeituras e câmaras municipais Brasil afora. No entanto, algumas vitórias significativas buscam por um certo equilíbrio entre as esferas.
Porém, mesmo fazendo parte da agenda ideológica do campo da esquerda a inclusão de minorias em espaços de poder e de tomada de decisão, há de se observar a falta de tais figuras nos resultados eleitorais. Os grandes nomes da esquerda continuam sendo homens, em sua maioria brancos.
“Os resultados relacionados ao desempenho dos partidos mais à esquerda mostram uma dificuldade não só relacionada a eleição de mulheres, mas no contexto mais geral. Dos partidos que mais elegeram prefeituras, o primeiro partido de esquerda é o PSB, apenas o sétimo no ranking, seguido pelo PT”, diz Antônio Fernandes.
Mulheres eleitas, porém, com histórico familiar na política
“Muitas vezes as mulheres que são eleitas, tanto na esquerda quanto na direita, já fazem parte de famílias políticas, sendo representantes de um grupo no qual muitas vezes os homens já ocupam algum cargo eletivo”, diz Fernandes.
Sandra Paes, esposa do presidente da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), Álvaro Porto (PSDB), por exemplo, vai seguir seu segundo mandato como prefeita de Canhotinho, no Agreste. Outros exemplos são: Thalita Fonseca (PV), conhecida como Thalita de Doda, seu pai, reeleita para governar Camutanga, na Mata Norte; e Corrinha de Geomarco (União), viúva do ex-prefeito de Dormentes. Além delas, outros nomes despontam, como Natália de Menudo (PSB), filha do ex-vereador, reeleita, e Flávia de Nadegi (PV), filha de uma prefeita e irmã de um deputado estadual, ambas para a Câmara de Vereadores do Recife.
Por fim, Fernandes aponta que mesmo com essas questões de gênero e de ideologias políticas, os debates municipais ainda se centram mais nas necessidades da população. E é nisso em que os eleitos e eleitas se apegam para acumular votos, muitos mais do que em espectro partidário.
“A questão ideológica certamente se faz presente nas disputas para as câmaras de vereadores, mas na maioria das cidades grande parte desses candidatos estavam buscando falar sobre questões locais e como iriam resolver os problemas locais”, finalizou.
Fonte: LeaiJá.



Comentários