Eleições Diretas do PT expõem desgaste e tentativa de rearticulação em Pernambuco

Foto: Flickr PT
Enquanto se prepara para o Processo de Eleições Diretas (PED), marcado para 6 de julho, o Partido dos Trabalhadores em Pernambuco (PT) vive um momento de reorganização que carrega um peso maior do que a mera escolha de nomes para a direção estadual. Segundo a cientista política Priscila Lapa, o cenário atual reflete o esvaziamento programático da legenda e um processo de disputa interna que tem se voltado mais à sobrevivência de lideranças do que à renovação de ideias.
“O PT ainda é um partido orgânico, com base social estruturada, mas sofre com a falta de atualização de suas lideranças e pautas”, afirma Lapa. De acordo com a análise, o partido historicamente central no debate de esquerda no país enfrenta hoje dificuldades de formar consensos que ultrapassem interesses temáticos pontuais. Em vez de alianças programáticas, observa-se uma dinâmica marcada por alianças estratégicas voltadas à ocupação de espaços de poder.
Da centralidade à fragmentação: o refluxo da influência do PT
Priscila Lapa destaca que o PT já exerceu forte protagonismo na esquerda brasileira, especialmente nas “eras Lula” e no primeiro governo Dilma. Contudo, a legenda passou por um processo de “envelhecimento político” ao não renovar suas lideranças e agendas, tornando-se, segundo ela, “menos responsiva às transformações sociais e à emergência de novas forças políticas”.
Esse desgaste, associado às crises de imagem provocadas por escândalos de corrupção e à perda de influência institucional com encolhimento de bancadas e perda de prefeituras fez com que o partido deixasse de ser um polo aglutinador da esquerda para se tornar um dos vértices da polarização nacional. “Não acho correto classificá-lo como radical, mas é evidente que perdeu a capacidade de representar coletivamente os interesses progressistas”, analisa.
Disputa interna do PT revela fragmentação e aposta na mobilização de base
O presidente estadual do PT em Pernambuco, deputado Doriel Barros, confirma que o partido tenta mobilizar sua base de filiados em todo o estado. “A expectativa é de uma presença bastante marcante. Temos quatro ou cinco chapas em disputa no âmbito estadual e outras nos diretórios municipais. Em Recife, por exemplo, são quatro chapas disputando a direção”, detalha.
Entre as principais forças políticas internas, destacam-se correntes como a CNB (Construindo um Novo Brasil) e a ADS. Além das representações locais ligadas aos quatro nomes que disputam a presidência nacional da legenda: Edinho Silva, Romenique, Rui Falcão e Walter Pomar. “Todos têm representação em Pernambuco”, ressalta Doriel.
De acordo com ele, a prioridade das forças internas é a reeleição do presidente Lula em 2026, mas também há foco na reconstrução da presença partidária em cargos legislativos: “Queremos eleger um senador e ampliar as bancadas estadual e federal”.
Onde estão as novas vozes do partido?
Nas eleições internas, o PT deveria voltar os olhos para a construção de uma nova liderança que dialogasse com a geração mais jovem, algo essencial para reacender a chama da militância, que vem se desgastando diante das disputas internas e da fragmentação entre correntes. Hoje, não há um novo “Lula”, nem uma figura que tenha força suficiente para mobilizar de forma ampla os eleitores da esquerda. Essa lacuna evidencia a falta de espaço e representatividade das juventudes dentro do partido.
Enquanto isso, legendas como o PSOL vêm ocupando esse vácuo com figuras que se conectam com o público jovem. É o caso da deputada Erika Hilton, que ganhou visibilidade ao protagonizar pautas como a PEC contra a escala 6×1, mobilizando engajamento e popularidade nas redes sociais. Erika compreende as linguagens e demandas dessa geração, e isso faz diferença.
Em Pernambuco, uma aposta possível nessa renovação é a vereadora do Recife, Kari Santos. Jovem e atuante nas redes, Kari tem conseguido viralizar suas propostas, especialmente no contexto pré-eleitoral de 2024, utilizando plataformas como Instagram e TikTok para comunicar ideias e atrair atenção de novos eleitores.
Seu desempenho poderá se consolidar caso consiga traduzir essa visibilidade em articulação política concreta.
Nesse cenário, é essencial compreender que não se trata apenas de visibilidade, mas de construir pontes com uma nova base política. Como aponta a cientista política Fernanda Negromonte: “É aí que entra também outras questões, como o protagonismo da nova geração.
A gente vê no cenário da composição da nova legislatura dentro da Câmara do Recife, dentro dos partidos políticos. Assim acaba que não pode deixar de lado esse protagonismo, porque aí o partido vai perder a aderência. Vai perder a aderência porque tem que, além de voltar com o trabalho de base, lidar também com captar esse novo eleitorado, esse eleitorado que está apático para a política.”
Pauta de 2026 fica para depois, mas o reequilíbrio começa agora
Apesar do movimento intenso nos bastidores, o PT não deve tomar decisões estratégicas sobre as eleições de 2026 neste momento. “Acredito que o debate político mais direto sobre 2026 virá apenas no próximo ano. Agora é hora de reorganizar a base e retomar o trabalho de mobilização”, afirma Doriel Barros.
Para Priscila Lapa, a ausência de um governo federal com alta popularidade e capacidade de articulação no Congresso também enfraquece o PT localmente. “É como se o partido estivesse indo para o jogo com menos fichas de negociação”, resume. Isso torna o PED ainda mais crucial: não apenas como espaço de definição de rumos, mas como termômetro da capacidade de regeneração da legenda.
O PT segue sendo um partido com raízes, mas precisa mostrar que ainda tem fôlego para se reinventar. A eleição interna que se aproxima pode ser o primeiro passo de um processo maior ou mais um sintoma de um ciclo que se fecha.
Fonte: LeiaJá.



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