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Divisão força de Raquel e João a partir dos votos

Brito
há 6 horas
6 min de leitura

A vitória de Raquel Lyra no primeiro turno da eleição para o Governo de Pernambuco foi desenhada muito além dos grandes centros eleitorais. O mapa das urnas mostra uma candidatura capaz de se espalhar pelo território do Estado e vencer em 132 dos 184 municípios, além do arquipélago de Fernando de Noronha, enquanto João Campos concentrou sua força no Recife, em parte da Região Metropolitana e em redutos específicos do Agreste e do Sertão.


Mais do que uma simples divisão entre capital e interior, o resultado expõe duas estratégias eleitorais distintas: de um lado, a intensidade de votos obtida pelo candidato do PSB em determinados municípios; de outro, a capilaridade construída pela governadora ao longo do Estado. Para os cientistas políticos Felipe Ferreira Lima e Elton Gomes, a dimensão territorial da vitória de Raquel não pode ser compreendida apenas pelos percentuais obtidos em cada cidade. O resultado passa pela estrutura política dos municípios, pela relação entre prefeitos e governo estadual, pela capacidade de entrega de obras e programas e, sobretudo, pela construção de uma rede de alianças capaz de atravessar diferentes regiões de Pernambuco.

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Ao mesmo tempo, João demonstrou que sua candidatura não se limitou à capital: obteve votações superiores a 60% em diferentes municípios, formando bolsões de alta concentração eleitoral. O problema, na avaliação dos especialistas, foi transformar essa força localizada em presença mais abrangente. "Essa é uma diferença clássica entre um voto de intensidade e um voto de extensão", resume Felipe Ferreira Lima. Na leitura dele, João conquistou percentuais elevados em alguns municípios específicos, mas Raquel conseguiu transformar sua vantagem em extensão territorial, obtendo votação constante em um número maior de cidades.


Estratégia do interior para a capital

Historicamente, eleições para o Governo de Pernambuco são fortemente influenciadas pela capacidade dos candidatos de construir alianças nos municípios. É nesse ponto que o cientista político identifica uma das principais explicações para o resultado de Raquel. Segundo ele, a estrutura das prefeituras continua tendo peso significativo, sobretudo em municípios cuja economia depende fortemente da administração pública e da presença de recursos estaduais.


A governadora tinha uma vantagem que o adversário não possuía: estava no comando do Executivo estadual. Obras, programas, estradas, ações hídricas e investimentos passaram a compor não apenas a atuação administrativa, mas também a percepção política sobre a presença do governo nos municípios.

                       

Para Felipe, a estratégia de Raquel foi, inclusive, uma inversão da lógica tradicional de uma candidatura competitiva ao governo estadual. Em vez de partir de uma grande vantagem na capital para posteriormente buscar o interior, a governadora teria feito o movimento contrário.


Enquanto João Campos apostava na popularidade construída durante a gestão do Recife, Raquel percorreu o Estado em busca de prefeitos, lideranças e alianças. O movimento, na interpretação do cientista político, foi "do Sertão ao cais": consolidar primeiro a presença no interior para, depois, chegar à Região Metropolitana.


Uma grande batalha pelo eleitor do Recife

A capital continuou sendo o principal reduto eleitoral de João Campos. Mas sofreu um baque com o avanço de Raquel Lyra. O socialista teve 473.994 votos, equivalentes a 49,94% dos votos válidos, contra 437.301 votos de Raquel, que alcançou 46,07%. Praticamente um empate, com diferença de 36.693 votos.


O resultado, de certa forma, confirma a resiliência política de João na cidade onde foi prefeito e construiu sua principal imagem pública. Mas também indica a consolidação da aprovação do governo Raquel.


O dado ganha outros contornos quando observado junto ao restante da Região Metropolitana. Dos 14 municípios do Grande Recife, Raquel venceu em 11. João ficou com Recife, Olinda e São Lourenço da Mata. A governadora conquistou Abreu e Lima, Araçoiaba, Cabo de Santo Agostinho, Camaragibe, Igarassu, Itamaracá, Ipojuca, Itapissuma, Jaboatão dos Guararapes, Moreno e Paulista.


Para Felipe, esse foi um dos pontos decisivos da eleição. A expectativa de que a popularidade de João na capital pudesse produzir uma margem muito maior teria reduzido a urgência de uma estratégia mais agressiva de construção de alianças no interior e na própria Região Metropolitana.


"Raquel procurou não enfrentar João Campos diretamente no Recife. A estratégia foi avançar sobre municípios onde havia espaço para construir alianças e onde João não tinha a mesma hegemonia eleitoral," diz Elton


Sertão

No Sertão pernambucano, a votação variou conforme as características políticas e socioeconômicas. João teve sua maior vantagem territorial no Sertão de Itaparica, onde venceu seis dos sete municípios, e conquistou cidades do São Francisco e do Araripe. Raquel avançou no Sertão Central, no Pajeú e no Moxotó. No São Francisco e no Araripe, o equilíbrio reinou.


Os percentuais também evidenciam a diversidade eleitoral sertaneja. João chegou a 61% em Itacuruba e a 73,2% em Santa Cruz. Raquel alcançou 69,3% em Orocó e 76,3% em Tabira. No Pajeú, a governadora venceu 12 dos 17 municípios, incluindo Serra Talhada, principal centro eleitoral da região, com 54,3% dos votos.


Para Felipe, os resultados refletem a formação de "microterritórios" . "Cada região possui uma composição própria de lideranças, prefeitos, deputados, tradições partidárias e relações econômicas", analisa.


Elton também chama atenção para as diferenças entre os municípios sertanejos e para a relação das administrações locais com o governo estadual. "O grande problema é querer entender o Sertão como um bloco monolítico. O Sertão é composto por numerosos municípios, que não têm o mesmo perfil econômico, demográfico nem a mesma matriz ideológica partidária. Isso explica a diversidade de resultados", afirma.


A influência das alianças locais e da dependência administrativa ajuda a explicar por que o desempenho de um candidato em determinada área não se repetiu necessariamente nas cidades vizinhas. Enquanto prefeitos com acesso a outras fontes de recursos tiveram maior margem para se aproximar de João Campos, a dependência de repasses, obras e programas estaduais favoreceu alianças com Raquel Lyra em outros municípios, segundo a análise de Elton Gomes.


Agreste

No Agreste Central, a governadora venceu 22 dos 26 municípios, uma ampla hegemonia. O resultado mais expressivo veio de Caruaru, onde alcançou 75,2% dos votos válidos. A cidade tem peso que ultrapassa o tamanho de seu eleitorado. Foi ali que Raquel construiu sua carreira política, exerceu dois mandatos de prefeita e consolidou uma estrutura de liderança que se projeta sobre municípios do entorno.


"Caruaru é a base do subsistema de poder regional de Raquel Lyra. A influência política da cidade se irradia para os municípios do entorno e ajuda a explicar a força eleitoral da governadora em todo o Agreste," diz Elton. Ela venceu ainda em Bezerros, Riacho das Almas, Brejo da Madre de Deus, Belo Jardim e Gravatá, entre outros municípios.


O Agreste Setentrional reforçou essa tendência. Raquel venceu 13 dos 19 municípios e obteve alguns dos maiores percentuais de toda a eleição: 83,3% em Santa Cruz do Capibaribe, 78,9% em Taquaritinga do Norte, 78,3% em Toritama e 73,3% em Frei Miguelinho. No Agreste Meridional, a disputa foi mais equilibrada. João conseguiu alguns de seus maiores percentuais estaduais. Em Caetés, chegou a 76,1%; em Pedra, a 70,9%; e também venceu Garanhuns, com 53%.


Zona da Mata evidencia a extensão territorial da vitória

Nenhuma outra área evidencia tão claramente a extensão territorial da vitória de Raquel Lyra quanto a Zona da Mata. Consideradas em conjunto, a Mata Norte e a Mata Sul somaram 39 vitórias da governadora em 43 municípios. Na Mata Norte, ela venceu em 18 das 19 cidades, com Buenos Aires como única vitória de João Campos, que obteve 58% dos votos. Na Mata Sul, Raquel venceu em 21 dos 24 municípios, enquanto João levou Escada, Quipapá e Tamandaré.


Para Elton, o resultado pode ser compreendido, em parte, pelas condições socioeconômicas da região e pela dependência de políticas públicas estaduais. Em municípios onde a população enfrenta maior vulnerabilidade social, a capacidade do governo de viabilizar obras, recursos e programas pode influenciar as alianças políticas e o comportamento eleitoral.


"Em regiões marcadas pela vulnerabilidade social e pela dependência de políticas públicas, os prefeitos tendem a manter uma relação pragmática com quem tem capacidade institucional para entregar obras, recursos e programas. A presença do governo estadual ganha peso nesse cenário e pode se tornar um instrumento importante para a sustentação política das lideranças municipais."


Outro fator que ajuda a explicar o avanço de Raquel, segundo Felipe Ferreira Lima, foi o enfraquecimento da estrutura do PSB em parte da Zona da Mata. O partido, que durante anos manteve presença expressiva na região, perdeu prefeituras e espaços estratégicos, abrindo margem para a expansão da governadora. Felipe define esse contraste como a diferença entre intensidade e extensão. João teve intensidade: votações muito altas em determinados locais. Raquel teve extensão: capacidade de transformar sua presença política em vitórias espalhadas por uma parcela muito maior do território.


Fonte : JC.

 
 
 

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