Após um primeiro mandato excessivamente técnico, Raquel abre as portas para a política

Tão logo foram fechadas as urnas e proclamado o resultado, ela chamou sua bancada para começar a discutir a formação da mesa diretora da Assembleia
Por Terezinha Nunes
“Eu não sou de acreditar nessas coisas, mas desconfio de que Raquel é uma pessoa predestinada” — comentou com um amigo o ex-senador Armando Monteiro no início do mandato da governadora Raquel Lyra. Havia, no meio político, e o amigo quis saber a opinião de Armando sobre isso, a sensação de que ela tinha composto uma equipe excessivamente técnica, deixando de fora até políticos que a apoiaram de forma entusiasmada na campanha de 2º turno de 2022 — Miguel Coelho foi um deles — e que poderia, sem a experiência dessas lideranças, acabar se dando mal no Governo. Não se sabe de uma só pessoa que ela tenha ouvido antes de formar sua equipe anunciada na véspera da posse.
A explicação dada na época por pessoas que conviveram com Raquel na Prefeitura de Caruaru era a de que ela tinha tido o mesmo comportamento quando assumiu a prefeitura — na época se dizia na cidade que ela não se elegeria mais nem para síndica — e se deu bem, sendo reeleita por uma diferença exponencial de votos. “Vai dar certo” — afirmavam, pregando num deserto de incertezas. Deputados da base do Governo se inquietavam na Alepe e passaram a conviver com um certo pânico quando o ex-prefeito João Campos se lançou na disputa após uma reeleição na qual teve 78% dos votos dos recifenses e começou a colecionar em torno de si candidatos ao Senado a perder de vista.
Vagas só no segundo escalão
A governadora acabou abrindo algumas exceções, até porque precisava ter maioria na Alepe, mas não foi muito longe. Entregou ao PP do deputado federal Dudu da Fonte, que controlava dez votos na Casa, órgãos como o Detran (depois repassado à família Ferreira), Lafepe, Ceasa, mas não passou disso. Secretaria, nem ver. O único político admitido como secretário foi Daniel Coelho, que tinha tido mais de 100 mil votos para deputado federal em 2022 e não se elegeu porque a chapa da governadora não tinha cauda. Quando ele perdeu a eleição para prefeito do Recife, demorou a ser chamado de volta para o primeiro escalão.
Só no ano de 2025, com a eleição se aproximando e João Campos a anos-luz dela nas pesquisas eleitorais, Raquel foi admitindo mais a chegada dos políticos no seu entorno e acabou abrindo espaço para auxiliares ligados ao ex-senador Armando Monteiro, do Podemos, quando nomeou Cícero Moraes como secretário de Agricultura, para o PP, que indicou o deputado estadual Kaio Maniçoba como secretário de Turismo e Lazer, e para os Coelhos de Petrolina, que passaram a administrar a Secretaria de Desenvolvimento Econômico.
Agora que se reelegeu com o apoio de um exército de prefeitos, a grande maioria interioranos, mas perdeu a eleição para o Senado por falta de articulação política — seus senadores só foram apresentados na convenção e, no dia da eleição, quase ninguém sabia que candidatos ao Senado ela apoiava — e que se prepara para voos mais altos no futuro, a governadora mudou de tom. Tão logo foram fechadas as urnas e proclamado o resultado, ela chamou sua bancada no Palácio para começar a discutir com os deputados a formação da mesa diretora da Assembleia.
Também convidou para uma conversa Eduardo da Fonte, presidente da Federação União Progressista, que elegeu sete estaduais, e o presidente do Podemos, Marcelo Gouveia (o partido também elegeu sete parlamentares), para saber das expectativas dos dois.
O clima no Palácio é outro. Ninguém tem mais receio de confirmar que os políticos e partidos que ajudaram a governadora na reeleição vão ser chamados a compor a nova administração. Já é certo que o ex-prefeito de Petrolina Miguel Coelho ou seu irmão Fernando Filho estarão no secretariado. Também se discute a chamada para o primeiro escalão de deputados estaduais eleitos para que suplentes assumam o mandato na Alepe. Se alguém propusesse isso antes, era rebatido de pronto. Hoje se conversa sem receio sobre esta possibilidade.
Ajuste de rota
Para a cientista política Priscila Lapa, “o segundo mandato representa a consolidação política da governadora e do seu grupo político, por isso é importante uma visão política melhor estruturada. Isso faltou no primeiro mandato e foi responsável por dois anos de desgaste com o Legislativo e a sociedade”. No seu entender, “com essa composição mais política será possível uma sinalização mais clara para as bases nos municípios sobre as ações e alianças que serão fortalecidas. É uma construção que ela tem todas as ferramentas para fazer, pela alta aprovação e consolidada vitória”.
Já o cientista político Felipe Ferreira Lima acha que essa mudança de postura da governadora “tem menos a ver com convicção e mais com aprendizado à força. O primeiro mandato dela foi marcado por rusgas com a Assembleia, quedas sucessivas de secretários e um trato político bem difícil. E não foi acidente: quem acompanhou sua gestão em Caruaru viu esse mesmo filme, choques com a Câmara, saídas de secretários. É o estilo dela”.
E conclui: “ela governa tentando gerir a máquina tecnicamente, mas sempre teve dificuldade com a mediação política, o que é inevitável. Agora reeleita e sem margem para repetir o desgaste, está corrigindo o roteiro antes que ele se repita. Some-se a isso que ela venceu justamente com endosso de prefeitos e precisa blindar a base devido às incertezas sobre quem ganhará a eleição presidencial, se Lula ou Flávio. Não é conversão, acho que é ajuste de rota e quem já sabe onde o sapato aperta”.
Redação com texto de Terezinha Nunes especial para o JC Foto: Isaias Silva-Secom
Fonte : Blog Dellas.



Comentários