CPI da Publicidade, empréstimos, gestão: os embates entre Raquel Lyra e a Alepe em 2025

Raquel Lyra durante a divulgação do balanço anual do Governo do Estado. Foto: Júlio Gomes/LeiaJá/Arquivo
A crise no relacionamento entre Raquel Lyra (PSD) e a Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) marcou o terceiro ano de mandato da governadora de Pernambuco. Embora esteja longe de ser o único destaque da gestão em 2025, considerando o bom número de entregas e conquistas como o Arco Metropolitano e a requalificação de rodovias pernambucanas, a situação entre o Executivo e o Legislativo estaduais caminha em direção a 2026 com múltiplos pontos de tensão ainda não eliminados.
De um lado, a governabilidade mais centralizada de Lyra incomoda os parlamentares da Casa, que se veem menos participantes das decisões-chave. Do outro, há uma indisposição generalizada por parte da Alepe, que não tem feito muita questão de remediar a crise.
O exemplo mais recente é a votação da Lei Orçamentária Anual (LOA), que ainda não aconteceu, apesar do prazo constitucional ter sido encerrado em 4 de dezembro. O presidente da assembleia, Álvaro Porto (PSDB), que não escondia as diferenças com a governadora nem quando eles eram correligionários, é outra figura importante nesse momento de oposição sistêmica.
Na avaliação de Priscila Lapa, professora e doutora em ciência política, a oposição encontrou, ao longo do mandato de Raquel Lyra, espaços que o governo não foi capaz de ocupar. A especialista reconhece que a governadora se elegeu com votação expressiva, formando um palanque amplo e rompendo com anos de hegemonia do PSB, todos esses fatores que colaboraram para um fortalecimento político.
Por outro lado, a governabilidade não impôs um ritmo condizente com as vantagens que Lyra já possuía à época. “A governadora errou no tom ao determinar que o governo não seria político, mas sim, técnico”, pontua Lapa.
Relembre os principais pontos de tensão
CPI da Publicidade
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Publicidade tinha como objetivo apurar indícios de irregularidades na contratação de uma empresa de publicidade pelo Governo de Pernambuco. A investigação visava o contrato de até R$ 1,2 bilhão com a empresa E3 Comunicação Integrada Ltda, que levantava suspeitas de favorecimento, impessoalidade e potencial conflito de interesses, pois a empresa teria vínculo com Waldemiro Teixeira, parente da governadora.
Tudo sobre a CPI foi motivo de conflito. Até mesmo a formação do colegiado passou por entraves, após a liderança da bancada do PSDB e, consequentemente, a representação do partido na CPI, ficar sob disputa entre os deputados Diogo Moraes, que faz oposição a Raquel Lyra, e Débora Almeida, aliada à governadora.
Por diversas vezes, Lyra reagiu à abertura da CPI e chegou a classificá-la como uma “discussão política menor” e “narrativa eleitoral antecipada”. Após ser instalada em agosto deste ano, em uma reunião marcada por tumulto e bate-boca, a CPI passou por uma suspensão breve e foi finalmente anulada em setembro, acatando um parecer da Procuradoria Geral da Alepe.
Empréstimos travados
A aprovação de termos orçamentários foi outra grande protagonista nos embates do ano. Conforme levantado pelo LeiaJá no último mês de junho, apesar de apostar antes da queda de braço, a Alepe costuma aprovar os projetos e empréstimos de Raquel. Até o momento, isso não aconteceu sem empecilhos e debate público.
Duas contratações foram o cerne dessa indisposição. A primeira, orçada em R$ 1,5 bilhão, foi solicitada em março e aprovada apenas em setembro, seis meses depois. O empréstimo, com origem na União, servirá para obras como o Arco Metropolitano e a conclusão da duplicação da BR-232.
Já a segunda solicitação, realizada em junho, ainda consta como pendente. É o empréstimo de R$ 1,7 bilhão para financiar a carteira de projetos estratégicos e estruturantes que já foram anunciados pelo governo e inclusive constam no Plano Plurianual 2024-2027, aprovado pela própria Alepe. A pendência se une à votação da Lei Orçamentária Anual, que ficará também para o próximo ano e já acumula dias de atraso.
Críticas à gestão de segurança pública
A segurança pública de Raquel Lyra, chefiada por Alessandro Carvalho, secretário de Defesa Social, foi alvo de críticas dos parlamentares durante todo o ano. Álvaro Porto chegou a acusar o governo de ter construído uma narrativa sobre a segurança pública baseada em “números controlados”. Ele também apontou a “falta de eficiência” e classificou o governo como incapaz de dar andamento a projetos mesmo com “dinheiro em caixa”.
Outros parlamentares aderiram ao embate. Romero Albuquerque (União) e Gleide Ângelo (PSB), por exemplo, questionaram o atraso nas obras de construção de delegacias e complexos policiais anunciados em 2023 pelo programa Juntos pela Segurança, da SDS. Em meio às cobranças, houve também denúncias sobre o sucateamento das unidades policiais, poucas viaturas e déficit de delegados.
Votação das cotas do CPU-PE
Agora com o procedimento em andamento regular, e data da prova definida, o Concurso Público Unificado de Pernambuco (CPU-PE) não esteve livre dos impasses na Alepe. O certame passou um período “travado” e com inscrições suspensas, enquanto o governo aguardava a votação de um Projeto de Lei (PL), de autoria de Raquel Lyra, que institui a reserva de 30% das vagas para cotas raciais.
Apesar de o Governo do Estado ter encaminhado o PL com urgência à Assembleia Legislativa de Pernambuco, para garantir a adequação do edital, a matéria não entrou na pauta da Comissão de Constituição, Legislação e Justiça (CCLJ) com o caráter solicitado. As cotas foram aprovadas após cerca de uma semana, e sancionadas pelo governo, mas não através do projeto do Executivo.
Cenário para 2026?
Para Priscila Lapa, a crise entre a Alepe e Raquel Lyra não é irremediável. Com a chegada do ano eleitoral de 2026, as peças se movem e o contexto pode mudar e favorecer o diálogo entre os dois poderes. Ainda assim, a relação do governo com a assembleia depende de participação dupla — neste caso, é necessário uma maior abertura, sobretudo por parte dos parlamentares.
“Acredito que a governadora tem totais condições de, numa nova forma de se relacionar com a assembleia legislativa, encontrar mais oportunidades de uma implementação das suas medidas e priorização daquilo que ela e o governo entendem como sendo prioridade para Pernambuco. Claro, uma relação sempre depende de dois atores, não de apenas um”, explica Lapa.
No próximo ano, o cenário estará mais acirrado devido às eleições. Por agora, os dados de pesquisa e opinião pública ainda são outros. “É preciso que haja gestos, disposição e outros ingredientes para que a relação flua do ponto de vista da bancada de oposição. Essa construção não é trivial. A medida que a gente compreende a competição de 2026 é que a gente poderá verificar quais são as reais capacidades que a governadora terá de liderar os processos políticos e fortalecer a sua capacidade de trabalhar sua agenda sem tantos conflitos com a Alepe”, continua.
Diferenças de perfil — A cientista política destacou as diferenças entre os perfis políticos “e também pessoais” de Raquel Lyra e João Campos (PSB), prefeito do Recife e o provável grande adversário da governadora nas urnas, no próximo pleito.
Para Priscila Lapa, o perfil de Lyra não é exatamente o de negociar de forma ampla, e sim, caso a caso. A governadora também costuma centralizar o processo de decisão, sem delegar a conjuntos muito amplos o que considera prioridade em sua gestão.
“Muitas vezes, isso gera um acúmulo que forma insatisfações sobre a demora e a dificuldade de acesso. Então, a governadora criou um pouco essa visão sobre ela de que ela é alguém mais duro nas negociações das suas frentes, demonstrando que não abre mão daquilo que considera prioridade. Isso não significa que ela não tem perfil político. A mudança dela de partido, em 2025, e as alianças que ela fez em 2024, são demonstrações de que ela tem muita capacidade de negociação”, descreveu.
Já o perfil de Campos é mais aberto, não à toa, o prefeito se consolidou através de uma frente ampla. “Ele demonstra que na sua atuação cotidiana na política parecer alguém mais aberto, que tem um estilo de mais diálogo, mas não necessariamente ele delega [aos outros] aquilo que ele considera estrito de tomada de decisão e que pode impactar de forma estratégica o seu governo e a sua formação de palanque. João herdou de Eduardo [Campos] a sapatilha de saber negociar”, contrapôs.
No entanto, os perfis convergem. “Sem dúvidas, eles são figuras políticas que tinham tudo para ter um estilo parecido porque, de certa forma, vêm de um mesmo berço político. Raquel não é da família, mas foi secretária no governo Eduardo, conviveu fortemente com o estilo Eduardo Campos. No fim, eles são políticos jovens e que têm ideias inovadoras, mas são pessoas muito diferentes”, finalizou.
Fonte : Estadão
LeiaJA.



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