Bancada feminina da Alepe cresce 33%, mas fica abaixo do recorde histórico

Lara Santana, Andréa Medeiros e Dani Portela. Fotos: Roberta Guimarães; Divulgação; Júlio Gomes/LeiaJá
A presença de mulheres na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) vai aumentar na próxima legislatura. Isso porque, nas eleições do último domingo (4), oito deputadas foram eleitas para ocupar as 49 cadeiras do Legislativo estadual nos próximos quatro anos.
O número representa um crescimento de 33,3% em relação à composição definida nas eleições de 2022, quando seis foram eleitas. Na prática, a bancada feminina ganha duas integrantes. Porém, apesar do avanço, o resultado ainda fica abaixo do recorde registrado em 2018, quando dez mulheres conquistaram cadeiras. Naquele ano, elas chegaram a representar 20,4% do Legislativo estadual.
Com as oito deputadas, a próxima composição terá mulheres em 16,3% das cadeiras. Além disso, o percentual ainda está distante da participação feminina no eleitorado pernambucano: em 2026, elas representam 53,64% das pessoas aptas a votar no estado, segundo o Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE).
Dani Portela é a mais votada
A deputada estadual Dani Portela (PT), reeleita para um novo mandato, foi a mulher mais votada. Com 146.123 votos, ela também terminou na primeira colocação geral entre os eleitos na Casa.
Além de Dani, a nova bancada feminina será formada por Lara Santana (PV), Maria Arraes (PSB), Débora Almeida (PSD), Gleide Ângelo (PP), Professora Ivete Caetano (PT), Andréa Medeiros (PSD) e Roberta Arraes (PP). Ademais, a composição combina deputadas reeleitas, retornos à Casa e estreias no Legislativo estadual.
Entre as integrantes, Lara e Andréa chegam à Alepe para o primeiro mandato estadual. Ivete deixa o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Educação de Pernambuco (Sintepe) para assumir uma cadeira na Assembleia, enquanto Maria aparece após ter exercido mandato como deputada federal.
Quem deixa a Alepe
A mudança na bancada feminina também ocorre porque três deputadas da atual legislatura não permanecerão na Assembleia a partir de 2027.
Rosa Amorim (PT) disputou uma vaga para a Câmara dos Deputados e foi eleita. Com isso, deixará a Alepe para assumir um mandato em Brasília.
Simone Santana (PSB) não disputou nenhum cargo nas eleições deste ano. Ela é mãe de Lara Santana, uma das novas integrantes femininas.
Socorro Pimentel (PSD), por sua vez, deixou a disputa estadual para concorrer à Câmara dos Deputados, mas não conseguiu se eleger.
Oito deputadas representam avanço, mas distância ainda é grande
Para o cientista político Bhreno Vieira, é correto afirmar que o crescimento feminino representa um avanço, mas não elimina a diferença entre a participação das mulheres no eleitorado e sua presença no Legislativo.
“É um avanço importante, mas ainda insuficiente. O aumento de 33% corresponde à passagem de seis para oito deputadas eleitas. Às vezes, tratar tais medidas em porcentagem não revela os números totais, e esse aumento precisa ficar claro: passou de seis para oito. Portanto, há um aumento que precisa ser reconhecido, mas a distância entre a participação das mulheres no eleitorado e sua presença nas decisões políticas continua muito grande”, explicou.
A comparação ajuda a dimensionar o resultado: embora a bancada feminina tenha crescido um terço em relação a 2022, as mulheres ainda ocuparão pouco mais de uma em cada seis cadeiras da Alepe.
Regras eleitorais ampliaram mecanismos de proteção e financiamento
As eleições ocorreram sob regras atualizadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que mantiveram mecanismos voltados à participação feminina e reforçaram medidas relacionadas à violência política e ao uso de inteligência artificial durante a campanha.
Entre as normas estão regras para a distribuição de recursos públicos às candidaturas de mulheres, além de medidas destinadas a combater a violência política. O TSE também estabeleceu regras específicas para conteúdos produzidos ou modificados por inteligência artificial.
Uma das novidades do pleito foi a restrição à circulação de novos conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por IA que utilizassem imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas. A publicação, republicação e o impulsionamento pago desses conteúdos ficaram proibidos no período entre as 72 horas anteriores à votação e as 24 horas posteriores ao encerramento do pleito.
Em agosto, o TSE divulgou ainda os percentuais de candidaturas femininas, negras e indígenas considerados para a destinação de recursos públicos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) e do Fundo Partidário. A aplicação dos percentuais mínimos está sujeita ao controle da Justiça Eleitoral.
Regras ajudam, mas não explicam sozinhas o resultado
Embora as mudanças possam ampliar as condições de participação das mulheres, Vieira reafirma que não é possível atribuir diretamente a elas o aumento da bancada feminina em Pernambuco apenas com base no resultado eleitoral.
“As regras ajudam a ampliar as oportunidades, especialmente quando asseguram recursos e visibilidade às candidatas. Pesquisas sobre eleições anteriores mostram que a obrigatoriedade de financiamento contribuiu para reduzir desigualdades na competição”, garantiu.
O cientista político ressalta, porém, que parte dos mecanismos de financiamento e incentivo à participação feminina já existia antes de 2026.
“Para afirmar quanto elas contribuíram para o aumento da bancada em Pernambuco, precisaríamos analisar os recursos recebidos, o apoio partidário e a trajetória das candidatas. O crescimento da bancada, isoladamente, não permite demonstrar esse efeito”, disse.
A avaliação chama atenção para uma diferença entre a existência de uma regra eleitoral e sua aplicação efetiva durante a campanha. Segundo Vieira, há casos em que candidatas recebem recursos partidários apenas na parte final da disputa, quando o tempo disponível para utilizar o dinheiro e estruturar a campanha já é menor.
Apoio dos partidos pesa na disputa
Outro obstáculo apontado pelo cientista político está dentro das próprias estruturas partidárias: “Um dos principais obstáculos é conseguir apoio efetivo no interior do partido, pois são as lideranças partidárias que alocam o financiamento, estrutura de campanha e acesso a outras lideranças que possam auxiliar nas campanhas”.
A questão ganha importância em eleições para deputado estadual, nas quais os candidatos precisam construir uma rede de apoio em diferentes municípios. Para Vieira, essa presença em posições de liderança dentro dos partidos também pode influenciar a distribuição dos recursos.
“Há pesquisas que mostram que, quando há lideranças partidárias mulheres, os recursos são melhor distribuídos entre homens e mulheres”, disse.
Contudo, a dificuldade tende a ser maior para mulheres que disputam o primeiro mandato e ainda não possuem uma estrutura política consolidada.
“Na disputa estadual, construir uma base de apoio em diferentes municípios exige recursos e articulação política, o que dificulta a entrada de quem ainda não possui uma trajetória consolidada”, explicou.
Não basta cumprir a cota de candidaturas
A legislação estabelece uma participação mínima de mulheres nas candidaturas proporcionais. Para Vieira, porém, cumprir a exigência de registro não significa que todas as candidaturas tenham condições semelhantes de disputar votos.
“Cumprir a proporção de candidaturas é fundamental, mas a possibilidade de ganhar a eleição depende das condições oferecidas para disputar votos”, afirmou.
Uma candidatura competitiva envolve mais do que o registro na Justiça Eleitoral. Recursos, equipes, divulgação, presença territorial e apoio político podem determinar a capacidade de uma candidata alcançar diferentes regiões do estado. Por isso, Vieira defende maior fiscalização sobre a aplicação das regras e investimentos na formação de novas lideranças femininas.
“É necessário maior investimento político e financeiro. As cotas e a garantia de 30% não são suficientes, é preciso ter fiscalização mais apurada sobre isso”, avaliou.
Para o cientista político, os partidos também deveriam investir desde o início da campanha em estrutura, equipes, divulgação e formação de novas candidatas.
“Os partidos precisam garantir recursos desde o início da campanha, equipes, divulgação e apoio das lideranças. Também precisam investir na formação de novas candidatas, pois concentrar o financiamento apenas nas mulheres que já têm mandato pode preservar algumas posições sem ampliar suficientemente o acesso de outras à representação política.”
Fonte : LeiaJa.



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