A hegemonia do DNA socialista: como a “escola PSB” movimenta o ritmo do tabuleiro político em Pernambuco

Fotos: Reprodução/Redes Sociais
Embora os palanques oficiais ainda não tenham sido montados e as dúvidas ainda estejam presentes nos bastidores políticos do estado, uma constatação se impõe sobre o cenário político pernambucano: os nomes que polarizam as intenções de voto são, em sua essência, “crias” do Partido Socialista Brasileiro (PSB). O fenômeno revela que, mesmo em meio a rupturas aparentes, o estado permanece sob a influência de um ecossistema político moldado ao longo de décadas.
O exemplo dessa origem comum começa pela própria governadora Raquel Lyra (PSD), que esteve na legenda em suas duas primeiras legislaturas. A gestora, que tem pautado sua narrativa em críticas contundentes à gestão do ex-governador Paulo Câmara (PSB), é cercada por aliados que costumam afirmar que a gestão atual “fez em três anos o que o PSB não fez em 16”. No entanto, mesmo com frases e estratégias para afastar qualquer ligação com o passado, a trajetória da gestora é indissociável da legenda socialista: Raquel serviu como defensora ferrenha da sigla na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) entre 2010 e 2016, justamente durante o auge do PSB no poder.
Essa proximidade histórica, contudo, não impede o embate direto que se desenha para outubro. No tabuleiro eleitoral, a governadora tentará derrubar as peças socialistas para consolidar seu próprio projeto e provar sua capacidade de comandar o Palácio do Campo das Princesas por mais quatro anos.
Rivais forjados na “escola PSB”
O desafio ganha contornos de um embate geracional e político, já que seu principal rival é João Campos (PSB). Embora pertençam a famílias distintas, ambos compartilham a mesma formação de base: João é o herdeiro político direto de Miguel Arraes e filho de Eduardo Campos, enquanto Raquel foi forjada na mesma estrutura partidária, consolidando uma disputa que, para muitos opositores e observadores, parece ocorrer entre dois expoentes de uma mesma escola de gestão.
Diante desse cenário, vozes da oposição argumentam que a rivalidade é menos profunda do que parece. O pré-candidato a deputado federal, Jones Manoel (PCBR), crítico das tradicionais famílias políticas do estado, já apontava em agosto do ano passado que Raquel, por sua origem, é a “outra face de um mesmo projeto político” em comparação a João Campos.
Essa tese de que não há uma ruptura real é compartilhada pelo pré-candidato ao governo estadual, Ivan Moraes (PSOL), que classificou, no mês passado, que a disputa é lida como uma variação do mesmo modelo tradicional: “não é polarização. São duas candidaturas que vêm do mesmo campo político, da mesma tradição de acordos antigos e da mesma lógica familista que governa Pernambuco há décadas”.
Essa percepção de que ambos “bebem da mesma fonte” é reforçada por análises acadêmicas.
“A competição ocorre dentro de um mesmo espectro político moderado, com diferenças mais de estilo, prioridade e estratégia de alianças do que de desenho estrutural de políticas públicas. Há variações na ênfase: maior ou menor proximidade com o governo federal, distintas composições partidárias, diferentes redes municipais. Mas não se observa, até o momento, ruptura substantiva em modelos de desenvolvimento, política social ou governança”, explica o cientista político e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Arthur Leandro.
Para o estudioso, o embate trata-se menos de projetos antagônicos e mais de uma “disputa por quem lidera o bloco pragmático que historicamente organiza o poder estadual”.
“Essa fragmentação produz um efeito ambíguo. Por um lado, reduz polarização e amplia previsibilidade institucional, pois os atores compartilham repertório e linguagem política semelhantes. Por outro, enfraquece a lógica tradicional de oposição, substituindo-a por competição por hegemonia dentro do mesmo campo ideológico”, observa.
Disputa por espaço
A onipresença da matriz socialista não se limita à disputa pelo Palácio do Campo das Princesas. O tabuleiro para o Senado também é ocupado por figuras forjadas no PSB que, apesar de rupturas recentes, devem compor o palanque da chapa encabeçada pelo socialista João Campos. É o caso do ex-prefeito de Petrolina, o ex-pessebista Miguel Coelho (União Brasil), e da ex-deputada federal Marília Arraes (Solidariedade). Ambos se consolidam como opções competitivas para as duas vagas que estarão em disputa este ano, travando uma batalha silenciosa por espaço e proximidade nas fotos ao lado do prefeito do Recife.
Neste cenário, Marília Arraes desponta em situação de vantagem. Liderando as pesquisas de intenção de voto e superando inclusive o senador Humberto Costa (PT), que busca a reeleição, a neta de Arraes tem feito movimentos nítidos para colar sua imagem à de João Campos. Essa estratégia sinaliza que Marília parece ter arquivado as mágoas acumuladas desde sua saída da legenda socialista.
O histórico com o partido, no entanto, é de intensas turbulências. Após eleger-se vereadora do Recife pelo PSB em 2008, 2012 e 2016, Marília rompeu com a sigla para migrar ao PT, justificando na época sua discordância com as alianças nacionais dos socialistas, especialmente a aproximação com o PSDB em 2014.
Em sua carta de desfiliação, tornada pública e endereçada ao presidente estadual da sigla, Sileno Guedes (PSB), ela acusou o partido de “querer comandar desde simples decisões internas partidárias, que coubessem a escolhas democráticas e colegiadas, até o desenrolar de toda a cena e atores políticos do Estado”.
A tensão atingiu o ápice nas eleições municipais de 2020, quando ela e João Campos protagonizaram um embate pela Prefeitura do Recife considerado tão caloroso que, nos bastidores, a relação era descrita como de mútuo desconforto.
“Disputas intracampo”
Hoje, prestes a migrar para o PDT – sua terceira troca partidária recente -, Marília reconfigura sua postura e se apresenta como aliada estratégica do primo e ex-correligionária do prefeito, deixando no passado qualquer sentimento de mágoa. No entanto, ela se mostra atenta e não pretende ficar para trás nos planos dos socialistas.
Na semana passada, ao antecipar publicamente que “não tem volta” sua candidatura ao Senado, ela fez um movimento calculado para cobrar uma definição de João Campos, que ainda não oficializou os dois nomes de sua majoritária.
Para o cientista político Arthur Leandro, essa movimentação de mais uma “aluna” do PSB evidencia como a fragmentação dessa escola política altera a dinâmica da oposição.
Segundo o estudioso, “João Campos, Raquel Lyra, Marília Arraes e Miguel Coelho emergem de uma tradição política comum, marcada por pragmatismo administrativo, valorização da gestão pública, centralidade do Executivo estadual e forte articulação municipal”.
Essa homogeneidade de origem, na visão de Leandro, “reduz a probabilidade de uma clivagem programática nítida e desloca a competição para o terreno da liderança, da capacidade de entrega e da construção de coalizões”. Para ele, no fim das contas, a oposição em Pernambuco “deixa de ser estruturada por antagonismos ideológicos claros e passa a ser organizada por disputas intracampo”.
Fonte : LeiaJa.



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