Raquel Lyra e o desafio de crescer nacionalmente com Lula e apesar dele

Raquel Lyra (PSD) acertou ao preservar a neutralidade no segundo turno da eleição presidencial. A decisão, criticada por quem esperava uma declaração de apoio a Lula (PT) ou a Flávio Bolsonaro (PL), tinha consequências que ultrapassavam aquela disputa. Como defendemos neste espaço durante a campanha, uma governadora com possibilidade de ocupar um lugar no debate nacional precisaria guardar alguma independência para sustentar, adiante, um discurso de diálogo com eleitores dos dois campos.
Um apoio presidencial seria cobrado quando ela tentasse se apresentar como alternativa à polarização. Ao evitar esse compromisso, Raquel preservou uma condição importante para o próprio futuro. A discussão sobre seu nome para 2030 passa por esse acerto, mas depende principalmente do que acontecerá em Pernambuco e da relação que ela construirá com Brasília durante o segundo mandato.
Relação
Raquel precisa do governo federal para fazer um bom governo em Pernambuco. Obras, investimentos e programas que dependem da participação da União exigem uma relação produtiva com o presidente. O eleitor pernambucano espera que essa parceria funcione e dificilmente aceitará perder entregas porque a governadora deseja manter distância política do Palácio do Planalto.
Há, porém, um limite delicado nessa aproximação. Uma associação excessiva com Lula pode consumir a independência que ela preservou durante a eleição. Se pretende manter aberta a possibilidade de uma candidatura nacional, Raquel terá de construir uma relação em que consiga trabalhar com o presidente e conservar liberdade para discordar dele.
Isso exige conteúdo. A independência ganha consistência quando o eleitor consegue identificar o que uma liderança pensa, quais decisões apoia e quais considera equivocadas. Ficar fora de uma disputa presidencial foi uma escolha compreensível. A projeção nacional exigirá posições sobre assuntos que ultrapassam as fronteiras de Pernambuco.
Adversário
A provável presença de João Campos (PSB) no próximo ministério de Lula acrescenta uma dificuldade a essa relação. Caso se confirme, o adversário estadual de Raquel terá espaço dentro do governo do qual ela precisa para ampliar os resultados da própria gestão.
A depender da pasta, João poderá ganhar exposição, acesso a prefeitos e participação em entregas com repercussão em Pernambuco. Também terá a oportunidade de construir uma experiência administrativa fora do Recife e de reorganizar seu projeto político depois da derrota na eleição estadual.
Raquel precisará negociar com uma administração que poderá abrigar e fortalecer seu principal adversário. E terá de fazer isso sem permitir que a disputa pernambucana atrapalhe investimentos ou transforme cada agenda com Lula numa demonstração de adesão política.
O presidente, por sua vez, poderá manter uma parceria administrativa com a governadora enquanto oferece espaço ao PSB. A convivência entre esses interesses faz parte da política. Para Raquel, o trabalho será garantir que Pernambuco receba o que precisa e que sua identidade continue reconhecível nessa relação.
Mandato
Existe ainda uma dificuldade dentro de casa. Segundos mandatos carregam o risco de acomodação. Sem a possibilidade de uma nova reeleição para o mesmo cargo, o governante pode perder capacidade de mobilização, enquanto aliados começam a organizar a própria sobrevivência e a disputar a sucessão.
As cobranças também mudam. Problemas herdados deixam de servir como explicação suficiente. Equipes que pareciam novidades passam a responder pelo desgaste acumulado. O eleitor espera que o tempo no poder produza resultados melhores.
Se Raquel alimenta planos nacionais, precisará enfrentar esse risco com um segundo mandato ainda mais forte que o primeiro. A vitória eleitoral lhe oferece autoridade para organizar a administração e a relação com a Assembleia. A utilidade dessa força será medida pela capacidade de acelerar obras, melhorar serviços e entregar mudanças perceptíveis na vida das pessoas.
Uma governadora apresentada como alternativa para o país será examinada pelo que conseguiu fazer no próprio estado. Segurança, educação, saúde e infraestrutura fornecerão argumentos tanto para seus defensores quanto para seus adversários.
Caminho
O estímulo de Gilberto Kassab à projeção nacional de Raquel tem valor político. O PSD ganha opções ao colocar uma governadora nordestina entre os nomes que podem participar da sucessão presidencial. O interesse do partido, entretanto, dependerá também das circunstâncias e das alternativas disponíveis até 2030.
Raquel terá de construir razões para que essa possibilidade sobreviva às conveniências partidárias. Isso inclui resultados administrativos, capacidade de articulação e um discurso que faça sentido para quem nunca acompanhou uma eleição pernambucana.
A neutralidade preservou espaço para essa construção. Durante o segundo mandato, cada aproximação com Lula, cada divergência e cada entrega ajudarão a definir o uso que ela fará dessa autonomia.
Fonte : JC.



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