Raquel acerta ao chamar deputados mas precisa corrigir a articulação

Dessa vez, Raquel Lyra (PSD) não pretende dar espaço ao oportunismo que marcou a articulação da Mesa Diretora da Assembleia depois de sua eleição em 2022. Naquele momento, enquanto vivia o luto pela morte do marido, decisões foram tomadas aproveitando sua ausência do centro de operações políticas. Agora, ao chamar deputados eleitos e reeleitos para conversar logo depois da vitória, a governadora tomou uma iniciativa muito acertada. A relação que construir terá consequências sobre sua capacidade de governar a partir de 2027.
Pernambuco já conhece o custo de uma convivência em que quase toda divergência vira confronto e até a autorização para financiar obras se transforma numa batalha política.
Aprendizado
A reunião de segunda-feira, um dia depois da eleição, sinaliza que Raquel pretende participar desde o início da construção desse entendimento. Chamou sua bancada, relembrou as dificuldades do primeiro mandato e pediu união para discutir a composição da Mesa. Segundo os relatos do encontro, não apresentou um candidato. Começou pela conversa. A antecipação revela uma preocupação pertinente de quem quer evitar que os próximos quatro anos reproduzam os conflitos dos primeiros.
Dessa vez, Raquel busca controlar o processo de articulação, organizar os aliados e impedir que decisões importantes sejam tomadas enquanto o governo apenas observa.
Faz sentido. Uma governadora que precisa de autorização legislativa para executar parte de seus projetos deve se interessar pela organização da Assembleia. Deixar de conversar também é uma escolha política. E pode custar caro quando os acordos já estiverem fechados e restar ao Executivo administrar suas consequências.
Esse entendimento é importante para a equipe que conduz a articulação do governo que cometeu erros, muitos, ao longo do primeiro mandato. Negar isso agora, após a reeleição, é flertar com novos fracassos. O controle das comissões pela bancada aliada do governo é fundamental para que o estado funcione. E é bom que os responsáveis pelo fracasso dos últimos tempos nesse setor saibam disso.
Custo
Principalmente entre 2023 e 2025, os atritos entre o Palácio e a Alepe alimentaram uma crise que assumiu caráter sistêmico. O desgaste se acumulava, atravessava diferentes assuntos e dificultava a negociação seguinte. Essa relação atrapalhou o trabalho do governo e atrasou o caminho de obras estruturantes que dependiam da aprovação de empréstimos. Pernambuco precisava dos investimentos enquanto Executivo e Legislativo consumiam tempo numa disputa que parecia sempre encontrar um novo motivo para continuar.
O caso do empréstimo de R$ 1,5 bilhão ajuda a dimensionar o problema. O projeto chegou em março de 2025 e só foi aprovado em setembro, depois de quase seis meses de impasses. Entre as aplicações anunciadas estavam o Arco Metropolitano e a duplicação da BR-232 entre São Caetano e Belo Jardim. A demora atingia, portanto, uma autorização para financiar intervenções importantes para a infraestrutura do Estado.
O atraso na aprovação dos financiamentos repercutiu nas obras e prejudicou o ritmo que o governo precisava imprimir às entregas. A governadora apontou para interesses políticos dos opositores que queriam lhe tirar do governo. Não há como negar que isso ocorreu. Mas houve também muita imperícia dos emissários do Palácio. Não há também como negar isso. A briga e a falta de tato podem começar nos gabinetes, mas a conta alcança quem espera pela estrada.
Entregas
É esse ambiente que Raquel precisa evitar no segundo mandato. Haverá obras para concluir, projetos para executar e compromissos renovados com os eleitores. A vitória aumenta sua força política, mas também a cobrança. A governadora terá de transformar o apoio recebido em capacidade de entregar resultados, o que exige uma base organizada e uma relação de trabalho com a Assembleia.
A escolha da Mesa será um primeiro teste dessa capacidade. Depois virão as comissões, mas a articulação terá de continuar depois da eleição interna. Nenhuma composição dispensa o governo de explicar suas propostas, prestar informações, ouvir críticas e negociar. Governabilidade dá trabalho, mesmo. Você pode fazer do jeito mais fácil ou do jeito mais difícil, mas dá trabalho.
Independência
E Raquel ainda precisa tomar cuidado para que o esforço de aproximação não melindre a independência da Casa. Os deputados também receberam votos e têm responsabilidades próprias. A eleição da Mesa pertence a eles. A governadora pode conversar, defender alternativas e mobilizar seus aliados. Uma tentativa de impor a escolha poderia produzir o ressentimento que ela procura evitar. É um alerta importante.
Fonte : JC.



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