O Senado virou prêmio de consolação?
- Brito
- há 1 dia
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A política é feita de força, articulação, estratégia e, principalmente, de percepção. E é justamente a percepção que começa a produzir um desgaste desnecessário para dois dos principais nomes da política pernambucana: Eduardo da Fonte e Miguel Coelho.
O que deveria ser uma disputa legítima por espaço dentro da chapa da governadora Raquel Lyra está, aos poucos, ganhando contornos de uma disputa por atenção.
E isso não faz bem nem para Eduardo, nem para Miguel.
Estamos falando de dois atores políticos que possuem densidade eleitoral própria, estrutura partidária, aliados espalhados pelo estado e capacidade comprovada de transferir votos.
Não são iniciantes. Não são coadjuvantes. Não são nomes que dependem exclusivamente da bênção de alguém para existir politicamente.
Eduardo da Fonte construiu uma das mais robustas redes políticas de Pernambuco. São décadas de atuação, forte presença municipalista, influência em dezenas de prefeituras e uma marca consolidada na área da saúde. Como presidente estadual do Progressistas, lidera um dos grupos mais organizados do estado e transformou a construção de bases municipais em uma verdadeira especialidade política.
Miguel Coelho, por sua vez, carrega o peso político de uma das famílias mais influentes do interior pernambucano. Ex-prefeito de Petrolina, foi reeleito com votação histórica e mantém forte influência no Sertão, além de comandar o União Brasil em Pernambuco. Seu sobrenome continua sendo um dos mais relevantes quando o assunto é força política no interior do estado.
Diante disso, surge uma pergunta inevitável: como dois nomes desse tamanho aceitaram entrar em uma disputa que, aos olhos de muitos observadores, começa a parecer uma fila de espera por uma decisão que nunca chega?
Nos últimos meses, Pernambuco assistiu a uma sequência quase diária de gestos, manifestações, recados e demonstrações públicas de fidelidade à governadora. Em alguns momentos, a impressão transmitida é a de que ambos passaram a disputar quem aparece mais ao lado de Raquel Lyra, enquanto a definição continua sendo adiada. Reportagens recentes mostram que a vaga segue indefinida e que os dois pré-candidatos mantêm intensa movimentação para conquistar espaço na chapa governista.
O problema é que o tempo da política também produz desgaste.
Enquanto Eduardo e Miguel travam essa batalha silenciosa, a imagem que pode ficar para parte do eleitorado é a de dois líderes aguardando uma escolha que não controlam.
E aí surge o aspecto mais delicado da equação.
Raquel Lyra, consciente ou não, tornou-se o centro gravitacional dessa disputa. Quanto mais o impasse se prolonga, mais o poder de decisão fica concentrado em suas mãos. Enquanto isso, dois dos maiores ativos políticos de sua base permanecem ocupados disputando entre si.
A governadora ganha tempo.
Os postulantes acumulam expectativa.
E expectativa prolongada, em política, raramente fortalece alguém.
Há outro detalhe pouco comentado. Tanto Eduardo quanto Miguel possuem capital político suficiente para serem desejados por qualquer projeto majoritário em Pernambuco. São lideranças que agregam votos, estrutura e capilaridade. Não deveriam parecer dependentes de uma única porta de entrada para chegar ao Senado.
O mais curioso é que a disputa já ultrapassa a questão eleitoral. Ela começa a atingir o terreno simbólico. Afinal, quando dois líderes de peso passam meses tentando provar que merecem uma vaga, a pergunta inevitável deixa de ser quem será escolhido e passa a ser por que aceitaram permanecer tanto tempo aguardando uma escolha.
No final das contas, a vaga ao Senado deveria valorizar quem a ocupa.
Mas, no cenário atual, há quem comece a enxergar o contrário: líderes importantes correndo o risco de diminuir a própria estatura política enquanto aguardam uma definição.
Porque, em política, tão importante quanto conquistar espaço é jamais permitir que pareça que você está implorando por ele.
Fonte : Radar Metropolitano.



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