O interruptor eleitoral que pode favorecer Raquel e dar mais espaço a João
- Brito
- há 3 horas
- 3 min de leitura

A eleição de 2026 começou oficialmente no último domingo, mas ainda não começou para a maior parte dos eleitores. Candidatos fazem caminhadas, concedem entrevistas, publicam vídeos e discursam para militantes. Boa parte desse movimento, porém, circula entre quem já acompanha política. A virada de chave ocorrerá na próxima sexta-feira (28), quando a propaganda eleitoral gratuita chegar ao rádio e à televisão. O programa apresentará propostas, promoverá comparações e exibirá ataques, mas sua principal função é outra: avisar à população que chegou a hora de prestar atenção na eleição.
Interesse
A Quaest oferece a medida desse distanciamento. Apenas 36% dos brasileiros se dizem muito interessados nas eleições deste ano. Outros 42% estão pouco interessados e 21% não demonstram interesse algum. Significa que 63% do eleitorado ainda acompanham a disputa com pouca atenção ou nenhuma. Entre os independentes, que representam 32% dos eleitores e podem decidir a eleição presidencial, o afastamento é maior. Oito em cada dez estão pouco ou nada interessados.
O programa eleitoral entra justamente nesse espaço. Diferentemente das redes sociais, nas quais o eleitor escolhe quem seguir e os algoritmos reforçam preferências anteriores, rádio e televisão alcançam também quem não procura política. A propaganda aparece no intervalo do programa, durante o deslocamento para o trabalho, no rádio do carro ou na televisão ligada em casa. Mesmo quem não acompanha um bloco completo começa a reconhecer candidatos, ouvir propostas e perceber que outubro está perto.
O efeito ultrapassa a audiência direta. Trechos dos programas serão reproduzidos no noticiário, recortados para as redes sociais e compartilhados em grupos de mensagens.
Uma frase exibida na televisão pela manhã pode virar assunto no trabalho, vídeo no Instagram e discussão familiar à noite. O horário eleitoral cria uma agenda comum. É assim que a campanha deixa os círculos políticos e entra na rotina da população.
Vantagem
Em Pernambuco, essa mudança interessa especialmente a Raquel Lyra (PSD). Como lembrou o sociólogo Maurício Garcia, durante participação no Passando a Limpo, da Rádio Jornal, estudos acadêmicos identificam uma vantagem média de 9,5 pontos percentuais para governadores que disputam a reeleição. O número não significa que Raquel receberá automaticamente esse acréscimo depois do primeiro programa. Representa uma vantagem estrutural de quem já governa e pode usar a campanha para transformar realizações administrativas em razões para continuar.
Durante o mandato, as ações de um governo chegam ao eleitor de maneira fragmentada. Uma obra é inaugurada numa cidade, um hospital começa a funcionar em outra e um programa estadual beneficia determinado grupo. O horário eleitoral permite reunir tudo em uma narrativa de poucos minutos. Raquel poderá explicar o Estado que recebeu, mostrar o que entregou e apresentar o que pretende concluir. A estratégia combina com a ideia de que sua campanha venderá entregas.
Parte desse efeito já apareceu. No Datafolha, a governadora saiu de 35% em fevereiro para 48% em julho. João Campos (PSB) passou de 47% para 42% no mesmo período. Hoje os números estão estáveis.
Raquel transformou uma desvantagem de 12 pontos numa vantagem numérica de seis. O crescimento ocorreu antes do horário eleitoral, sustentado pela melhora na avaliação do governo, pelas entregas e pela expansão de sua presença no interior. A televisão poderá organizar e consolidar uma percepção que já começou a se formar.
Isso resolve a eleição? De forma alguma.
Disputa
João também possui instrumentos importantes. Terá mais tempo no programa eleitoral, capacidade reconhecida de comunicação e a participação de Lula (PT) como apoiador. Poderá apresentar sua gestão no Recife como demonstração de competência e usar o presidente para nacionalizar sua candidatura. Seu objetivo será convencer o eleitor de que as entregas de Raquel foram tardias, insuficientes ou aceleradas pela proximidade da eleição.
A disputa televisiva colocará frente a frente duas histórias. Raquel pedirá continuidade para concluir um ciclo de investimentos. João defenderá que Pernambuco pode avançar mais rapidamente sob outro comando. Ela mostrará obras estaduais e apoio de prefeitos. Ele apresentará resultados no Recife, o legado de Eduardo Campos e a aliança com Lula. A governadora terá a vantagem de falar sobre o que fez. O socialista terá a oportunidade de questionar o que deveria ter sido feito.
O programa eleitoral tende a favorecer Raquel por sua condição de governadora, mas também oferecerá a João a maior audiência simultânea de que dispôs até agora para tentar desconstruir essa vantagem. O primeiro movimento poderá aparecer no crescimento do interesse e na redução dos indecisos, antes de surgir como transferência de votos.
Fonte : JC.



Comentários