Jones Manoel: Liderança comunista recifense se apresenta como alternativa para 2026
- Brito
- 17 de out. de 2025
- 6 min de leitura

Foto: Reprodução/Instagram/@jones.manoel
O prognóstico dos especialistas para as eleições de 2026 é de que elas serão marcadas por uma polarização sem precedentes. Entre uma esquerda que voltou a se unificar alicerçada na figura do presidente Lula (PT), e uma direita sem rumo com seus representantes disputando entre si a cadeira deixada por Bolsonaro, outros nomes surgem como uma alternativa para romper a ‘mesmice’ predominante.
Dentre aqueles que se destacam, está Jones Manoel da Silva. Natural do Recife, capital de Pernambuco, Jones ganhou notoriedade nas redes sociais ao defender uma leitura marxista clássica da realidade brasileira, centrada na organização do proletariado como instrumento de transformação social e emancipação da classe trabalhadora.
Constantemente ovacionado durante suas participações em debates e podcasts, Manoel acumula mais de um milhão de seguidores no Instagram e já é incentivado por vários internautas a disputar a presidência da República no próximo ano.
Diante desse cenário, o LeiaJá conversou com dois cientistas políticos que abordaram sobre o futuro político de Jones Manoel. Com linguagem acessível e opiniões contundentes, os especialistas avaliam a viabilidade de uma possível candidatura do influenciador político.
Formação ideológica
Defensor apaixonado do comunismo tradicional, Jones Manoel acredita na revolução como norte político para promoção de uma reestruturação social. De acordo com a literatura marxista, esse elemento entra na equação da sociedade quando a classe trabalhadora – considerada historicamente oprimida – reivindica sua liberdade tomando os meios de produção e ocupando a posição de classe dominante.
A tese é melhor elaborada em seu artigo escrito para a revista Opera Mundi intitulado A Revolução Brasileira como horizonte político concreto. No texto, ele pontua que, na ausência da possibilidade do ‘sistema burguês’ dar uma chance as novas alternativas de mundo, a resposta seria impor o surgimento de uma nova ordem por meio de uma revolta popular em larga escala.
“Existe um fator político essencial que deve atuar como contratendência à ordem burguesa: elevar a radicalidade das lutas populares cotidianas, produzir e difundir uma teoria e cultura revolucionária, tensionar ao máximo a ordem burguesa e ser sujeito ativo na geração de uma crise política”, destaca.
A crítica de Jones Manoel ganha novos desdobramentos quando se é analisado o cenário político estadual e nacional. O historiador é categoricamente contrário ao modelo adotado por muitos partidos e parlamentares da esquerda que atuam em conjunto com o setor privado, promovendo privatizações e outros investimentos. Para ele, fomentar o chamado “neoliberalismo progressista” resulta num atraso para o projeto de poder revolucionário.
“Por esse caminho, nenhum dos problemas fundamentais do povo trabalhador será encarado e nossos adversários históricos e imediatos não serão derrotados”, escreveu em seu artigo publicado no Blog da Boitempo.
Olhando para Pernambuco com um cenário polarizado entre a governadora Raquel Lyra (PSD) e o prefeito do Recife, João Campos (PSB), Jones Manoel se declara contrário as políticas desenvolvidas por ambos. Neste sentido, Manoel defende que a esquerda necessita de uma nova frente política para derrotar o “fascismo e o Estado burguês”.
Disputas eleitorais e expulsão
Conquistando força dentro de movimentos populares, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) anunciou, em dezembro de 2021, sua pré-candidatura ao governo de Pernambuco nas eleições de 2022. Essa foi uma maneira da legenda testar a força eleitoral que o jovem comunista poderia dispor.
Em sua primeira eleição ao executivo, tendo a assistente social Raline Almeida como candidata a vice-governadora, Jones Manoel ficou em 6º lugar no pleito, obtendo 33.931 – correspondente a 0,69% do eleitorado. Um ano após sua derrota nas eleições, o Comitê Central do PCB juntamente com outros quatro membros – como Ivan Pinheiro – decidiram expulsar Manoel e outros integrantes da legenda.
Após a expulsão do Partido Comunista, o influenciador e os demais filiados excluídos do partido formaram um coletivo político que passou a adotar o nome de Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), que está em processo de organização e desenvolvimento.
Força nas redes se traduz em viabilidade eleitoral?
Apesar de não ter ultrapassado a margem de erro nas eleições de 2022, atualmente Jones Manoel vem conquistando cada vez mais espaço entre o público jovem. A questão que se coloca agora é se o influenciador conseguirá transformar essa crescente popularidade em capital político suficiente para disputar — e vencer — cargos de maior relevância no cenário eleitoral, tendo em vista seu interesse em disputar a presidência da república em 2026.
Para o cientista político do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Elton Gomes, o radicalismo de Jones Manoel em sua crença na “ditadura do proletariado”, traz dificuldades para que a sua possível candidatura conquiste grande parte do eleitorado. “Qualquer pessoa com uma crença política desse tipo é por definição pouco atrativa para o eleitor médio – que, em geral, não é nem ultradireitista e nem ultraesquerdista”, observou.
Em decorrência disso, esclarece Gomes, a possibilidade de uma vitória significativa de Manoel só poderia ser viável caso existisse ou exista uma quantidade expressiva de pessoas que defendam a ideologia de “tomada violenta de poder e instauração de um regime autoritário, mas não é o caso”, afirma.
Por outro lado, o cientista político e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Arthur Leandro, avalia que o radicalismo de Jones Manoel, embora limite sua aproximação com setores mais moderados da sociedade, pode funcionar como elemento mobilizador em contextos específicos. Segundo ele, em Pernambuco e em determinadas regiões do Nordeste, a postura combativa do historiador tende a consolidar uma base juvenil engajada e ideologicamente coerente, favorecendo a construção de redes políticas de longo prazo.
“Essa postura pode atuar como fator de coesão para uma juventude mais radical ou politicamente insatisfeita, legitimando um nicho polarizado com alto potencial de fidelização. Se bem administrada, essa lealdade pode se converter em um instrumento estratégico: partidos menores ou correntes de esquerda mais moderada podem optar por alianças com Jones, mesmo que com ressalvas”, analisa Leandro.
Acrescido disso, observa Arthur Leandro, a combinação digital intensa ocasionada pelo discurso de ruptura e performance ideológica, sustenta o projeto de candidatura à presidência de Jones Manoel, baseado na movimentação das redes e na estetização da dissidência. “Esse caso é emblemático para compreender os deslocamentos no campo progressista, as novas formas de ação política para além das estruturas institucionais clássicas”, ressalta.
O radicalismo dificulta no processo?
A articulação política que dialoga com os diferente setores de uma sociedade é, por tradição, fundamental em uma democracia. Discursos que pendem excessivamente para um lado, tendem a serem rechaçados pela população em geral, apontam os especialistas.
“Apesar de ser um influenciador com crescimento ascendente nas redes sociais, ele [Jones Manoel] enfrenta obstáculos significativos do ponto de vista da sua perspectiva como comunista revolucionário, porque até mesmo a esquerda viável eleitoralmente do Brasil adota uma linha que não é a dele”, aponta Elton Gomes.
De acordo com Gomes, com forte presença nas urnas, o progressismo brasileiro ancorado na figura do presidente Lula (PT), adota uma linha de tomada por etapas do poder, favorecendo o diálogo amplo – o que diverge do perfil ideológico do influenciador. “A agenda dele em defesa do comunismo radical e que se coloca contra as principais forças políticas de direita e esquerda no país, torna ele pouco performático em termos eleitorais”.
Além disso, adiciona Elton Gomes, a expulsão de Jones Manoel do Partido Comunista fazendo-o criar o PCBR – que ainda não possui volume político – contribuem na criação de obstáculos para uma possível reviravolta eleitoral. “Ele sem dispor de um invólucro partidário que aceite todo esse componente ideológico radical, torna ele inviável eleitoralmente”, finaliza.
Em complemento a avaliação de Gomes, Arthur Leandro frisa que a radicalização excessiva tende a dificultar o processo de construção de pontes com o eleitor moderado e grande parte dos partidos políticos – fator crucial para quem pretende fazer carreira na política. Por outro lado, o cientista político pontua que, caso Jones Manoel trabalhe no fortalecimento da fidelização do público juvenil que o acompanha nas redes sociais, aliado a disposição estratégica de modular seu discurso, equilibrar rupturas com ideais táticos, ele pode mostrar que tem viabilidade e capilaridade eleitoral.
Futuro político
A previsão dos especialistas converge ao analisar a força do discurso do influenciador. A defesa da justiça social tende a ganhar espaço entre jovens periféricos insatisfeitos com a falta de acesso ao consumo. Para o professor Arthur Leandro, ao se apresentar como comunista e militante de periferia, ele reforça uma identidade política que busca representar os excluídos e expor desigualdades.
No entanto, aponta cientista político Elton Gomes, os movimentos mais recentes da chamada janela de Overton indicam que a maioria do eleitorado, no Brasil e no mundo, tem se posicionado a partir de valores mais conservadores. Ele observa que, no contexto brasileiro, fatores históricos e culturais explicam um público majoritariamente conservador e religioso.
Nesse cenário, Jones Manoel enfrenta o desafio de transformar o engajamento digital em força política concreta, conciliando o discurso voltado às periferias com a necessidade de dialogar com um eleitorado mais amplo e diverso.
Fonte: LeiaJa.



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