Enquanto os hospitais sangram, Raquel curte Noronha
- Brito
- há 1 hora
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A permanência da governadora Raquel Lyra (PSD) em Fernando de Noronha após cumprir agenda oficial na sexta-feira transformou-se em mais um símbolo da desconexão entre o Palácio do Campo das Princesas e a realidade enfrentada diariamente por quem depende da saúde pública estadual.
Em um momento em que Pernambuco convive com uma escalada de denúncias, imagens de superlotação e relatos de atendimento degradante nas maiores unidades hospitalares do Estado, a escolha política da governadora não poderia produzir outro efeito senão indignação.
Os corredores do Hospital da Restauração seguem sendo retrato permanente do colapso. Macas espalhadas, pacientes acomodados em condições precárias, acompanhantes vivendo jornadas exaustivas e profissionais submetidos a uma rotina desumana já deixaram de ser situações excepcionais.
O Getúlio Vargas e o Otávio de Freitas repetem a mesma realidade: estrutura pressionada, atendimento saturado e sensação crescente de abandono. O que antes era tratado pelo governo como dificuldade pontual hoje já se consolidou como crise sistêmica.
E é justamente nesse contexto que o gesto político ganha dimensão ainda mais grave. Porque governar não é apenas administrar planilhas, contratos e agendas oficiais.
Governar é entender o peso simbólico das próprias escolhas. Quando uma população acompanha diariamente imagens de sofrimento dentro dos hospitais e vê sua governadora estendendo a permanência em um dos destinos mais paradisíacos do país, a mensagem transmitida é inevitavelmente devastadora.
Não se trata de questionar a importância institucional de agendas em Fernando de Noronha. O problema é a incapacidade de compreender o timing político e humano de um Estado mergulhado em uma emergência sanitária silenciosa. Pernambuco não vive um momento de normalidade administrativa. Vive uma crise aguda em serviços essenciais, especialmente na saúde, que exige presença, comando e demonstração inequívoca de prioridade absoluta.
Na política, ausência também comunica. E, neste caso, comunica distanciamento. Enquanto famílias peregrinam por vagas, pacientes aguardam horas em corredores e profissionais denunciam o esgotamento da rede, o governo parece incapaz de transmitir senso de urgência compatível com a gravidade da situação.
A imagem que fica é a de uma gestão anestesiada diante do próprio colapso. O desgaste aumenta porque a crise da saúde já se tornou uma das principais marcas negativas da atual gestão. A cada nova imagem viralizada dos hospitais, cresce a percepção de perda de controle administrativo. A cada denúncia, aprofunda-se a sensação de que falta coordenação, investimento eficiente e capacidade de resposta.
E, diante disso, a postura esperada de uma liderança política seria justamente ocupar o centro da crise, e não se afastar dele.
SEM O ECO DAS RUAS – O episódio de Noronha acaba funcionando, portanto, como metáfora perfeita do atual momento do governo Raquel Lyra: um governo que parece cada vez mais distante da realidade das ruas, enquanto a população enfrenta, nos hospitais públicos, uma rotina de sofrimento, espera e indignidade. E olha que a melhoria na saúde foi uma das suas principais bandeiras de campanha como contraponto às deficiências das gestões passadas.
Que sequestro? – A Neoenergia Pernambuco informou, em nota, que iniciaria no sábado passado o restabelecimento das subestações com fornecimento interrompido nas vilas agrícolas de Itaparica. Alegou que a medida só seria possível em razão do apoio das forças de segurança pública, porque a subestação Brígida, em Orocó, estava sequestrada, “com terceiros impedindo a entrada dos profissionais da distribuidora”. Este blog recebeu, entretanto, vídeos de agricultores da região mostrando a porteira de acesso à referida subestação com cadeado, sem nenhum sinal de um suposto sequestro.
O apagão – A empresa efetuou o desligamento da energia das subestações Brígida, Maria da Boa Vista e Caraíbas II. A ação impacta os municípios de Orocó, Santa Maria da Boa Vista e Parnamirim, no Sertão. Segundo a Neoenergia, foi necessário ampliar, na manhã da quinta-feira passada, o desligamento emergencial da Subestação Brígida devido ao impedimento de acesso das equipes para realização de manutenções preventivas e corretivas.
Prefeitos protestam – Em nota, o prefeito de Orocó, Ismael Lira, declarou que a situação é consequência de políticas públicas mal feitas e mal executadas. “Tenho acompanhado de perto e gerenciado toda a crise que se instalou por conta desse impasse entre o Governo Federal e a Neoenergia”. Na nota, ele afirma ainda que haveria desligamento total de energia na cidade de Orocó a partir das 11 horas. Também na sexta-feira, o prefeito de Santa Maria da Boa Vista, George Duarte (PP), gravou um vídeo com uma vela na mão em uma rua escura. “Parece mentira, parece um filme de fantasia, mas a Neoenergia simplesmente desligou a subestação do Projeto Brígida”, protestou.
Promessa de religação – De Fernando de Noronha, onde passou o fim de semana, a governadora Raquel Lyra postou um vídeo em suas redes sociais, revelando indignação com a situação. “Hoje o ministro Waldez [Integração e Desenvolvimento Regional], em telefonema comigo, garantiu a retomada da conexão de energia para todos que foram afetados. Falei com os prefeitos. No dia de hoje, a energia está sendo retomada”, afirmou. Mas, pelo menos até boa parte do dia de ontem, os protestos continuaram.
CURTAS
VAI QUEBRAR A CARA? – O presidente Lula (PT) avisou a aliados nos últimos dias que pretende reenviar ao Senado a indicação de Jorge Messias para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF), mesmo após a rejeição inédita sofrida pelo advogado-geral da União na Casa. Tem tudo para sofrer um novo revés, segundo o termômetro político da Casa Alta.
LÁ E LÔ – A Cálix Propaganda, agência do coordenador da comunicação da campanha de Flávio Bolsonaro, Marcello Lopes, o Marcelão, já recebeu R$ 71,5 milhões do governo Lula, por serviços prestados aos ministérios dos Transportes e da Integração e Desenvolvimento Regional, segundo o colunista Lauro Jardim, de O Globo.
ESGOTADO – Muito feliz com a grande demanda para o jantar dos 20 anos de fundação deste blog, hoje, a partir das 19 horas, no Sal e Brasa Jardins, na Rui Barbosa. Todos os convites já foram vendidos e não haverá venda de última hora no local do evento, simplesmente porque o ambiente não comporta tanta gente.
Perguntar não ofende: Lula vai insistir com Messias ou é blefe?
Fonte : Blog Ponto de Vista.



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