Eleitor de Flávio aposta no impeachment de ministros do STF

Por que Flávio Bolsonaro (PL) teve mais votos do que Lula (PT) no primeiro turno e desponta como favorito no segundo turno, próximo dia 25? Quem votou no filho de Bolsonaro na realidade mandou um recado de insatisfação com o Governo, que não passa de 42% de aprovação, e, principalmente, com o Supremo Tribunal Federal. Uma provável vitória de Flávio representa o primeiro passo para o impeachment de ministros da alta corte da justiça envolvidos em negócios escusos, como o escândalo do Banco Master.
O eleitor de Flávio entende que uma reeleição de Lula, ao contrário da volta do bolsonarismo ao poder, garante a impunidade de ministros, como Alexandre de Moraes. Não tenha dúvida: eleito, Flávio vai detonar os algozes do seu pai. As condições iniciais para isso já foram construídas: 46 senadores eleitos ontem são comprometidos com as causas bolsonaristas.
Lula está abatido e com medo de um grande revés no segundo turno. A vantagem construída por ele nos estados do Nordeste na votação de domingo não foi suficiente para superar o desempenho de Flávio Bolsonaro (PL) em regiões de maior peso eleitoral.
Flávio terminou o 1º turno à frente, com 56,1 milhões de votos (47,03%), contra 53,8 milhões de Lula (45,16%). A diferença foi de 2,2 milhões. Com esses números, o filho superou a votação do pai, Jair Bolsonaro, que no 1º turno de 2022 conseguiu 51 milhões de votos, contra 57,2 milhões de Lula.
No primeiro turno, Lula registrou seus maiores saldos de votos no Nordeste, onde venceu em todos os estados e acumulou diferenças superiores a 3,2 milhões de votos na Bahia, 1,8 milhão em Pernambuco e 1,8 milhão no Ceará. Ao todo, Lula fez um saldo de 11 milhões de votos no Nordeste.
O resultado, porém, é contrabalançado pelos ganhos de Flávio Bolsonaro em estados de maior peso eleitoral. Considerando as demais regiões, o candidato do PL acumulou 13 milhões de votos a mais que Lula. O destaque é São Paulo, onde o senador abriu vantagem de 3,4 milhões de votos, o maior saldo.
Também contribuíram para o desempenho os resultados no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e no Espírito Santo. Juntos, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro somam mais de 40% dos eleitores do país. Somente os saldos obtidos por Flávio em São Paulo e no Rio já tiraram boa parte da vantagem construída por Lula em estados nordestinos.
A força do senador na região foi complementada pelos resultados positivos no Sul, especialmente no Paraná e em Santa Catarina, onde as diferenças ultrapassaram 1,8 milhão de votos. Assim, embora Lula tenha conseguido uma ampla dianteira no Nordeste, não foi suficiente para fazer com que o presidente terminasse à frente na votação no primeiro turno.
O peso eleitoral dos maiores colégios do Sudeste e a vantagem de Flávio em estados do Sul acabaram equilibrando a disputa nacional e garantiram ao senador um saldo superior na soma dos estados.
SERRA DESBANCA OS COELHO – O resultado da eleição deixou uma coisa clara em Petrolina, maior colégio eleitoral do Sertão: a supremacia política da família Coelho acabou apequenando a representação do município e do São Francisco. Com mais de 200 mil eleitores, Petrolina elegeu apenas dois representantes com base política no município: Fernando Filho, deputado federal, e Antônio Coelho, deputado estadual. Miguel Coelho, que também disputou uma vaga para a Câmara dos Deputados, ficou na primeira-suplência. A comparação com Serra Talhada é inevitável. Com um eleitorado muito menor, apenas 70 mil eleitores, a cidade elegeu quatro representantes da terra: Waldemar Oliveira para a Câmara dos Deputados e Sebastião Oliveira, Luciano Duque e Breno Araújo para a Assembleia Legislativa. É um resultado que chama atenção pela diversidade da representação política conquistada pelo município.
Andando para trás – Em Petrolina, ao contrário, um vasto universo de candidaturas acabou sufocado pela concentração de forças em torno da família Coelho. O resultado da eleição expôs justamente esse contraste. Para os críticos desse modelo, trata-se de mais um exemplo do que consideram o monopólio político municipal exercido pelos Coelhos, uma concentração que, na avaliação desses setores, limita a renovação e a pluralidade da representação da cidade. E a própria trajetória de Miguel Coelho nesta eleição reforça o tamanho do revés político: depois de ter sido candidato a governador, foi preterido na disputa pelo Senado, mudou a rota para a Câmara dos Deputados e terminou fora da lista de eleitos. Talvez seja a hora de Petrolina discutir de forma mais ampla o seu modelo de representação política. Uma cidade pode crescer economicamente, expandir sua população e se transformar urbanisticamente. Mas isso não significa, necessariamente, que esteja ampliando sua força política. Petrolina cresce para frente. Mas, na representação política, o resultado desta eleição mostra uma cidade que pode estar andando para trás.
Miguel pode assumir mandato – Ouvi, ontem, que na montagem do seu secretariado, a governadora Raquel Lyra (PSD) tende a oferecer uma pasta para a deputada federal eleita Juliana de Chaparral, esposa do prefeito de Surubim, Cleber Chaparral, eleita pela federação União Progressista, a mesma que Miguel Coelho disputou um mandato federal e acabou na primeira-suplência. Essa seria a equação política que Raquel teria para contemplar o ex-prefeito de Petrolina, que assumiria a vaga de Juliana na Câmara dos Deputados.
Alckmin na Fazenda – A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avalia anunciar que o vice Geraldo Alckmin será o ministro da Fazenda em um eventual quarto mandato. A indicação serviria para sinalizar ao mercado e ao eleitorado de centro no segundo turno das eleições, após o petista ficar atrás de Flávio Bolsonaro (PL). Aliados de Lula e integrantes do governo defendem a ideia, mas o presidente ainda não estaria convencido. Ex-tucano, Alckmin teve como bandeira nos seus quatro mandatos em São Paulo o controle dos gastos públicos.
O gigante Evilásio – Em Araripina, o prefeito Evilásio Mateus (PDT), um dos mais pressionados pelo clã Coelho para apoiar a reeleição de Raquel ao longo da campanha, resistiu a todos os tentáculos, mantendo-se fiel e firme aos compromissos assumidos com João Campos (PSB). Abertas as urnas, o candidato socialista teve 26.761 votos, 64,85% dos votos válidos, enquanto a governadora ficou com 14.157 votos, 34,9% dos votos válidos. O resultado mostra também a sintonia de Evilásio com a população e altíssima aprovação da sua gestão.
CURTAS
TRAIÇÃO – Escrevi ontem que o PT traiu João Campos com base na votação de Humberto, campeão de votos para o Senado. Mapeando a votação de Raquel identifiquei que Humberto foi apoiado oficialmente por 40 dos 150 prefeitos aliados da governadora, inclusive os dois gestores mais próximos – Caruaru e Sertânia.
VINGANÇA – A traição petista não é obra de Humberto nem tampouco foi conduzida por ele. Tem um histórico, guardado na geladeira petista: na votação do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, praticamente toda a bancada do PSB na Câmara dos Deputados votou pelo afastamento dela. Vingança se come pelas beiras, feito papa.
PODCAST – No podcast Direto de Brasília de hoje, o ex-ministro Gilson Machado vai falar sobre o resultado da eleição, sua expectativa em relação ao segundo turno entre Lula (PT) e Flávio, confronto marcado para o próximo dia 25. Gilson vai falar ainda da possibilidade de o novo Senado, formado por maioria expressiva de representantes da direita, do conservadorismo e do bolsonarismo, retomar a pauta do impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal e da liberdade do ex-presidente Jair Bolsonaro, caso Flávio venha a vencer Lula.
Perguntar não ofende: Para onde vão os votos de Cury, Caiado, Zema e Renan no segundo turno?
Fonte : Blog do Magno Martins.



Comentários